O PRESENTE DE DESPEDIDA (FICÇÃO)

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Phillip Baxter, finalmente, conseguira uma licença de cinco dias! Após três meses de árduo treinamento militar em Norfolk, o jovem de apenas dezenove anos conquistara o direito de voltar para casa e ver a família. É verdade que seria uma “última” visita, já que nas semanas seguintes, ele e seu regimento de artilharia seria enviado para combater na região do Oriente Médio, como também era verdade que a expressão “ver a família” significava ver sua mãe, Jean, sua irmã, Valerie, e o caçula, Peter; seu pai, também militar, estava em algum lugar na Birmânia com seu regimento de granadeiros, o qual comandava e havia algum tempo que não mandava notícias.

Ao embarcar no trem que o levaria para casa, Phillip tinha na memória o rosto de seus queridos familiares …, mas, havia um outro rosto que ocupava muito mais espaço que sua mães ou seus irmãos …, esse rosto era o rosto de Lorraine! Lorraine era uma mulher de meia-idade, moradora nas imediações onde residia a família Baxter, tinha origem belga, mas mudara-se para Londres assim que contraíra núpcias com o oficial de infantaria Ernest O’Connor, membro do corpo de engenharia do exército de Sua Majestade, o que acontecera pouco antes do início do conflito mundial que, agora, assolava a todos em todos os pontos do planeta.

Lorraine era linda e exuberante, mesmo quando procurava esconder sua beleza cativante sob o véu de uma recatada dona de casa típica da Londres daquela época. Não tinha um corpo escultural …, ou pelo menos, era o que o jovem Phillip achava, pois tudo a respeito daquela mulher eram conjecturas nascidas de uma mente ávida e muitíssimo fértil; no entanto, ela era uma mulher bonita e que, inadvertidamente, exalava uma sensualidade que parecia ter vontade própria, atraindo para si todos os homens à sua volta.

O jovem militar sempre cultivara um desejo oculto por Lorraine, e mesmo sabendo que, além de casada, ela era muito fiel ao marido, ele, ainda assim, mantinha acesa a chama do desejo carnal por ela. E, um pouco antes de partir para o treinamento, Phillip soubera que seu marido fora dado como “MIA” (Missing In Action), e essa notícia aqueceu ainda mais os desejos que nutria por Lorraine. Dentro do trem, ele não pensava em outra coisa que não fosse vê-la, mesmo que fosse pela última vez.

Desembarcou na estação e correu para alcançar a lotação que o deixaria próximo de sua casa. E quando sua mãe, Jean, abriu a porta, após ter ele tocado a campainha, ela explodiu e alegria em receber de volta seu filho mais velho. A recepção não podia ser mais esfuziante, pois todos na casa estavam com saudades do rapaz, agora metido em um uniforme da Infantaria Real de Sua Majestade, com ares de seriedade e sobriedade.

Depois de muitos beijos e abraços bem apertados, Jean quis saber quantos dias o filho permaneceria em casa; Phillip cessou os sorrisos, baixou a cabeça, e depois de um breve silêncio, respondeu com sua voz doce:

-Serão pouquíssimos, mamãe …, mas, não se preocupe, vamos aproveitar cada um deles!

Jean conteve as lágrimas que teimavam escorrer de seus olhos, deu um sorriso largo e pediu licença para continuar com suas tarefas domésticas.

O rapaz sabia que ela estava magoada com tudo aquilo …, primeiro o marido …, e agora, o filho …, que mãe suportaria tantas perdas em tão curto espaço de tempo? Phillip procurou não pensar mais nisso …, afinal, eram poucos dias que passaria ao lado de sua família, e, assim sendo, precisava aproveitá-los e fazer com que todos também os aproveitasse.

Após trocar de roupas, o rapaz decidiu dar uma volta pela vizinhança; saiu de casa em busca dos velhos amigos. Foi ao velho ginásio, onde ele e seus amigos costumavam jogar basquete. Lamentavelmente o edifício estava fechado; um velhote que bebia uísque em uma garrafa protegida por um saco de papel, disse-lhe que como não haviam mais rapazes (todos eles haviam se alistado), o diretor decidira fechar o prédio até que houvesse um momento mais oportuno.

Sentindo-se perdido com aquela informação, Phillip vagueou pelas ruas vazias de seu bairro, não encontrando ninguém conhecido pelo caminho, exceto as mães de alguns de seus amigos e outras garotas que também pareciam perdidas naquele enorme vazio.

Além disso, restaram casas semidestruídas pelas blitz alemãs, prédios aos pedaços, igrejas em escombros e a triste sensação de perda de valores que julgávamos sólidos, perpétuos e indissolúveis. Foi isso que restou para o jovem Phillip apreciar naquele primeiro dia de sua licença.

Sem perceber por onde caminhava, ele acabou estacando em frente a casa de Lorraine! Seu coração deu pulos dentro do peito, e, mais uma vez, Phillip foi tomado por aquela enorme hesitação de não saber o que fazer. De uma maneira incompreensível, aquela casa, assim como algumas outras nas redondezas foram poupadas dos ataques aéreos da aeronáutica alemã, e vê-la intacta causava uma sensação de proximidade do rapaz com a mulher de seus sonhos.

Phillip estava para dar as costas e resignar-se com seu destino, quando, repentinamente, a porta principal se abriu e Lorraine apareceu! Ela estava linda! Usando um vestido discreto e com os longos cabelos loiros amarrados em um rabo de cavalo, ela trazia nas mãos um balde e outras ferramentas. “Oh! Alô, Phillip!”, ela gritou para o rapaz, que mesmo sentindo o sangue gelar nas veias, criou coragem e foi ao encontro dela.

Cumprimentaram-se, e Lorraine quis saber a razão dele estar ali; ele lhe contou que conseguira uma licença antes de partir para a linha de guerra e que viera passar os dias com sua família. Estava cristalino no olhar e no sorriso de Lorraine que ela estava felicíssima em vê-lo, e de uma maneira inexplicável, parecia que ela esperava revê-lo ainda mais uma vez.

Sem esperar por respostas, Lorraine arrastou Phillip consigo para sua tarefa diária de colher alguns legumes em uma horta comunitária que ficava próximo dali; incapaz de dizer não, o rapaz a acompanhou. E foi um trabalho delicioso, principalmente porque estava ao lado da mulher de seus sonhos. Quando voltaram para casa, Lorraine insistiu para que ele tomasse um chá em sua companhia; um tanto desajeitado, ele acabou aceitando, instigado pela possibilidade de ficar mais algum tempo junto da mulher de seus sonhos.

Já no interior da casa de Lorraine, sorvendo uma xícara de chá, Phillip sentia-se desconfortável …, havia algo rondando no ar …, algo que insinuava o que não podia ser dito.

-Como estão os preparativos para a noite de natal, Senhora O’Connor – perguntou Phillip meio desajeitado.

Com dificuldade de segurar a xícara e com os olhos marejados, Lorraine não conseguiu conter sua tristeza ao responder a pergunta do jovem soldado.

-Não tenho o que preparar, querido Phillip …, nem para quem preparar …

Deixando de lado a prudência, Phillip levantou-se e foi até Lorraine, ajoelhando-se à sua frente e abraçando-a afetuosamente; foi algo muito profundo …, sentir o corpo de Lorraine junto ao seu e saber que podia confortá-la. Mas, após alguns, minutos, ambos se recompuseram retomando a situação anterior.

Phillip, que sempre fora de poucas palavras, agradeceu pelo chá e despediu-se; na soleira da porta, porém, tomou uma decisão importante.

-Porque você não vem cear conosco – perguntou ele com olhar baixo – Afinal, seremos apenas eu, minha mãe e meus irmãos …, e que mal há nisso?

Lorraine enxugou os olhos com a manga do vestido, e depois de um momento de hesitação, sorriu e aceitou o convite. Phillip sorriu de volta e disse que voltaria para buscá-la na noite da véspera.

Ao chegar em sua casa e contar a novidade para sua mãe, percebeu que a notícia a deixara desconfortável. E ante a insistência do rapaz em saber os motivos de tal comportamento, Jean acabou por confessar:

-Exceto por alguns legumes e algumas frutas, não temos mais nada, meu querido …, nada que possamos oferecer …, nem mesmo para seus irmãos …

Phillip ficou triste e pensativo …, mas, não tardou para que ele tivesse uma ideia. “Não se preocupe, mamãe, vou tentar resolver isso!”, ele disse enquanto se preparava para sair, deixando sua mãe curiosa. O rapaz pegou uma carona com um caminhoneiro que passava por ali, e depois de tomar o metrô, desceu na estação próxima ao Gabinete de Guerra de Sua Majestade. Conversou com o oficial encarregado a procura de alguém …, que logo encontrou.

-Olha, Phillip, se alguém me ver fazendo isso posso pegar Corte Marcial! – exclamava irritado seu amigo de longa data Dylan, que, agora, era um dos encarregados da intendência.

-Mas, ora, é por uma boa causa! – redarguiu o jovem – E são apenas umas poucas coisas …

-Poucas coisas? – exaltou-se Dylan – O que você está me pedindo é roubo!

-Não, não é! – devolveu Phillip – Digamos que é uma ação humanitária!

Ainda não convencido, Dylan acabou por aquiescer com o pedido do rapaz; foram até o depósito e saíram de lá com um engradado.

-Quanto à carne – prosseguiu Dylan, enquanto esgueiravam-se pelos corredores a fim de que não fossem vistos – Tome esse talonário …, ele dá direito à aquisição de cotas de carne de coelho por uma semana …, veja lá o que vai fazer com isso, hein?

Phillip agradeceu o amigo e rumou para o frigorífico que estava situado a duas quadras dali; carregado com o engradado e uma cota de carne de coelho, ele rumou para casa, sendo recebido festivamente pela mãe e pelos irmãos; Jean agradeceu e confirmou o convite feito por ele para Lorraine. Feliz da vida, o rapaz correu até a casa da amiga para confirmar o convite.

Bateu à porta, mas depois de alguns minutos, nada aconteceu …, esperou ansioso até que, instintivamente, ele girou a maçaneta, descobrindo que a porta não estava trancada. Encerrando dentro de si um misto de curiosidade e preocupação, ele entrou e vagueou pela casa; ouviu alguns ruídos vindos da parte de cima da casa, e com cuidado, subiu as escadas.

Caminhou pelo corredor estreito tomando cuidado de não ser ouvido; chegou até a porta do banheiro, que estava entreaberta, revelando uma linda mulher despida secando-se após um banho …, Phillip quase denunciou-se ao constatar que a mulher despida era sua linda Lorraine!

E a sua beleza era algo divinal …, de costas para a porta e com um dos pés apoiados sobre a beirada da banheira, Lorraine secava-se de modo displicente e despreocupado, fazendo a toalha passear por suas formas, enaltecendo inadvertidamente cada detalhe de sua sensualidade natural de mulher que parecia exalar incitações para o ambiente.

Era uma nudez insinuante, sem jamais parecer vulgar …, seu corpo desnudo, a brancura translúcida de sua pele, o modo com que se secava, misto de ingenuidade e também de sensualidade; tudo naquela mulher era a mais pura expressão do desejo, desejo esse que pulsava no baixo-ventre do jovem inglês, que se continha como podia, embora sua vontade fosse correr até ela!

Repentinamente, um ranger da tábua do piso, denunciou a presença do jovem soldado, espiando a mulher ao banho; Lorraine voltou-se na direção da porta, exibindo toda a sua nudez exuberante …, os olhos de ambos se cruzaram, e houve um momento de indecisão …, render-se à cumplicidade do momento, ou resignar-se com a solidão?

Lorraine deixou a toalha cair ao chão enquanto corria na direção de Phillip …, ela o abraçou e pediu que ele fizesse o mesmo para que ela pudesse, mais uma vez, sentir-se acolhida e protegida; Phillip atendeu ao pedido dela, apertando-a contra si, e deixando suas mãos passearem pela sua pele quente e macia. E quando ela o fitou, eles encerraram o primeiro beijo de suas vidas. Beijaram-se apaixonadamente por muitas vezes, tentando refrear o desejo que gritava dentro de seus corpos, encarcerado pelo receio e emudecido pela tradição.

Todavia, o inevitável já selara o destino do casal; tomados pela fúria do desejo, correram para o quarto; Lorraine ajudou Phillip a despir-se, já que o rapaz, afobado e inexperiente, padecia de um descontrole risível, não fosse a imperiosidade do momento. Assim que ela o viu nu, tocou seu membro em riste, sentindo suas dimensões e sua rigidez inquietante. Arrebatada pela virilidade jovial de seu parceiro, Lorraine ajoelhou-se e tomou-o na boca, sugando-o com uma voracidade sem limites.

A sensação causada pela boca ávida de Lorraine deixou Phillip à mercê do desejo da mulher que ele sempre ansiara em ter para si. Lorraine sugou o membro rígido de seu parceiro, deliciando-se com a sensação que isso lhe proporcionava, esquecendo-se e entregando-se de corpo e alma. De súbito, Phillip interrompeu gentilmente a carícia profunda de sua parceira, fazendo com que ela ficasse em pé; em seguida, ele e conduziu até a cama, fazendo com que ela de deitasse sobre ela.

Ele se ajoelhou ao lado da cama, e tomado de gestos sutis e cuidadosos, de quem cuida de algo muito precioso, ele fez com que ela, abrisse suas pernas revelando-lhe seu vale encantado. “Deixe-me retribuir teu gesto doce”, pediu ele em sussurro, enquanto mergulhava seu rosto entre as pernas da mulher, conduzindo-se pela vontade contida em sua boca. Logo, ele encontrou a razão de seu desejo, sorvendo o prazer diretamente do cálice da fêmea, que ao sentir-se saboreada, entregou-se ao prazer demonstrado por gemidos e súplicas de plenitude.

No momento em que o primeiro gozo fluiu nas entranhas de Lorraine, ela se viu envolta em um redemoinho de sensações que explodiam em sua boca, crepitavam em sua pele e vibravam em seu corpo …, jamais, homem algum a fizera desfrutar de um prazer de tal magnitude! Aquele rapaz, cuja jovialidade incontida era seu maior trunfo dera a ela uma das sensações mais sublimes de toda a sua vida.

Ao sabor das horas, o casal desfrutou um do outro; primeiramente, Phillip ficou sobre ela e cuidou para que seu membro encontrasse o caminho sem qualquer esforço …, fazendo sua pélvis subir e descer com firmeza, mas sem rudeza, mais uma vez, ele proporcionou a ela outros gozos intensos e caudalosos, que eram celebrados com gemidos e sussurros e com mãos acariciando o corpo do parceiro, segurando-o pela cintura e incentivando que os movimentos tomasse uma espiral crescente e quase infinita.

No momento seguinte, Lorraine, deixando de lado toda e qualquer recato, subiu sobre ele, cavalgando-o de uma forma que até mesmo ela desconhecida saber-se dominar; subindo e descendo sobre a virilidade de seu parceiro, a mulher belga atingiu outro clímax destituído de sutileza e carregado de luxuria. Lorraine que desconhecia, até aquele momento, a capacidade de um homem e dar prazer a uma mulher, surpreendia-se como Phillip conseguia fazer tudo aquilo que seu marido jamais conseguira (ou mesmo, tentara) fazer.

Sem aviso, Phillip fez cessar a montaria, fazendo com que Lorraine se deitasse de lado sobre a cama, enquanto ele a envolvia por trás com seu corpo; ainda assim, ela sentia a pulsação de seu membro, cutucando suas nádegas de maneira ousada e provocante. Instintivamente, ela curvou ainda mais o corpo, permitindo que o membro de Phillip avançasse por entre o vale formado pelas nádegas, roçando o pequenino altar ainda intacto da mulher belga.

O primeiro golpe foi doloroso, mas Lorraine estava tão obcecada pela possibilidade de que tal empreitada lhe proporcionasse sensações ainda mais alucinantes, deixou-se levar pelo momento, relaxando e servindo às intenções implícitas de seu parceiro, que seguiu em frente, rompendo a resistência inicial e invadindo aquele reduto antes inexpugnável e agora dominado pela volúpia máscula e jovial que fazia de Lorraine escrava de um prazer até então desconhecido.

A cópula anal deu-se de uma maneira quase mágica; Phillip estocava com movimentos firmes e concisos, enquanto sua amante retribuía, levantando uma das pernas a fim de facilitar a penetração; em dado momento, Lorraine enfiou a mão entre as pernas, procurando pela mão de seu companheiro; gentilmente ela a puxou para frente, até que encontrasse sua gruta úmida e quente. Com o esmero de uma professora, Lorraine ensinou a Phillip como dedilhar permitindo que ela obtivesse mais um gozo intenso e recheado de gemidos.

Em dado momento, o rompante viril de Phillip o traiu e ele sentiu espasmos percorrendo todo o seu corpo, ao mesmo tempo em que ejaculava violentamente nas entranhas de sua amante; Lorraine, sentindo-se invadida por uma onda quente e caudalosa, experimentou a doce sensação de um prazer jamais antes a ela proporcionado.

Vencidos pelo saboroso esforço do amor e do desejo, o casal adormeceu enlaçados como dois amantes há muito envolvidos pelo véu da plenitude. E a noite já estendia seu manto escuro, quando o som das sirenes ecoou pelas ruas de uma Londres atemorizada pelos ataques aéreos da Luftwaffe. Phillip saltou da cama, vestindo-se rapidamente, e chamando por Lorraine. Em poucos minutos eles estavam na rua correndo em direção a um abrigo antiaéreo, num misto de medo e de desespero. Desceram as escadas do abrigo próximo e juntaram-se às centenas de pessoas que se espremiam em um espaço úmido e sem ventilação.

As paredes estremeceram quando as primeiras bombas caíram, e, instintivamente, Lorraine atirou-se nos braços de Phillip, que a acolheu carinhosamente. E por algumas horas eles permaneceram juntos, enfrentando o terror de uma noite iluminada pelos morteiros mortais da força aérea alemã. Ao saírem do abrigo, o que viam era apenas fogo e fúria, e o que ouviam era apenas lamentos e lamúrias. Mais doloroso ainda foi ver que a rua em que Lorraine residia havia sido reduzida a escombros fumegantes …

Ela desesperou-se ao ver que não tinha mais casa, chorando copiosamente; Phillip tornou a enlaçá-la em seus braços e consolou-a por minutos, até que dissesse em tom firme e solene: “Não se preocupe, querida, minha casa tem acomodações suficientes para todos ...”; Lorraine fitou os olhos de Phillip e sem condições de dizer algo limitou-se a sorrir. E ele foram para a casa de Phillip, onde Jean a recebeu de braços abertos …, e foi assim que eles celebraram a noite de natal daquele ano turbulento.

Dois dias depois, Phillip embarcou para a frente oriental, despedindo-se de sua mãe, de seus irmãos e também de Lorraine que, agora, fazia parte da família.

Epílogo.

O rapaz juntou-se aos combatentes em Burma e depois de longos meses de batalhas inglórias, em uma certa manhã, ele recebeu o aviso de correspondência vindo do lar. Afoito, ele apanhou a carta acenada pelo mensageiro militar e correu para o alojamento de paredes de vime e teto de sapé; deitou-se na sua cama de campanha e abriu a pequena carta perfumada …, era de Lorraine!

“Querido Phillip, espero que estejas bem. Por conta da intensificação dos ataques aéreos, fomos orientados a nos retirar para o interior. Estamos abrigados em uma pequena fazenda, onde os proprietários nos tratam muito bem. Eu, sua mãe e seus irmãos cultivamos algumas hortaliças e criamos galinhas. Dia desses, seu amigo Dylan, esteve aqui e nos trouxe algumas coisas que você gentilmente pedira a ele. Todos estamos bem, mas ansiosos por seu retorno. De minha parte ainda sonho, todas as noites, com os doces momentos que passamos juntos. Te quero, Phillip, te quero muito! Volte vivo, por favor. Beijos da sua Lorraine”.

Era março de 1945, e na casa reconstruída de Lorraine, ela aguardava, ansiosa por notícias de Phillip; era uma peregrinação diária ao Ministério da Guerra para obter informações, mas, lamentavelmente, não havia nenhuma. Ela e Jean continuavam com suas vidas, sempre mantendo contato, tentando consolar-se mutuamente. A espera não era indolor, mas, de todo o modo, elas torciam para que, logo, Phillip retornasse para casa junto de seu pai …

Um dia, Lorraine recebeu uma carta do Ministério da Guerra, pedindo que ela comparecesse no hospital militar; tomada por desespero, ela correu até lá, mas o que encontrou foi seu marido; Ernest O’Connor havia sido resgatado e estava internado na ala psiquiátrica. Era um farrapo humano, magro, desdentado e tomado por tremores incontroláveis. O médico disse a ela que pouquíssimas eram as chances que ele pudesse se recuperar …, destroçada, mas ainda assim, feliz por saber que não se tratava do seu Phillip, Lorraine passou a visitar o marido regularmente.

Retornando para casa em um fim de tarde viu um militar prostrado em frente a sua casa. Ao aproximar-se viu que se tratava de Dylan, o amigo de Phillip. Ela correu até ele, ansiando por boas novas a respeito do seu amante. Todavia, o olhar distante do rapaz e o ar pesado em seu rosto diziam, justamente, o contrário. Após alguns minutos de silêncio perturbador o rapaz pôs-se a falar com tom solene:

-Lamento informar a Senhora, que o soldado de infantaria Phillip Baxter foi morto em combate e seu corpo foi enterrado na região de Burma …, como último pedido, ele deixou uma carta a ser entregue à Senhora, o que faço agora com enorme pesar …, o Exército de Sua Majestade agradece e homenageia os esforços de batalha do soldado …

Dylan estendeu a carta e sem nada mais a dizer, partiu, limitando-se apenas a informar que a família de Phillip já fora informada de seu infortúnio. Lorraine abriu a carta e as lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto enquanto lia as poucas linhas que seu amante lhe dedicara:

“Querida Lorraine. Enquanto escrevo essas linhas, estamos sob ataque cerrado. Minhas roupas mais parecem andrajos e meu corpo padece de dor, cansaço e fome …, a única coisa que ainda me faz lutar para viver é relembrar do teu rosto, do teu sorriso. Não sei se voltarei vivo, mas sei que com você em meu coração e em minha mente resistirei até a última munição. Se não voltar, jamais esqueça que eu te amei mais que tudo. Beijos do eternamente teu Phillip”.

Lorraine desabou em lágrimas e gritos de dor …, restara a ela apenas uma lembrança, um doce presente de despedida do jovem militar apaixonado que a abraçou numa noite infernal durante a guerra.

https://www.casadoscontos.com.br/texto/201803424

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